terça-feira, 13 de agosto de 2013

Reflexões 2

Ainda sobre regência, e especificamente sobre regência coral, gostaria de chamar a atenção dos que pretendem se direcionar para este segmento, da importância da regência do canto gregoriano. Nesta, não existem as mesmas regras da regência orquestra, muito menos a precisão do gesto, mas é ela que nos ensina a observarmos a fluência e circularidade da palavra.
Enganam-se aqueles que pensam que o gregoriano não tem ritmo, que é livre para se executar como quiserem. Pelo contrário, é completamente direcionado pela alternância de ritmos binários e ternários, perfeitamente transcritos na bela linguagem da notação neumática, e, controlado e direcionado pelas palavras e frases.
Para quem é de ouvir, ouçam a bela melodia. Para quem é de reger, pensem em como regeriam a mesma.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Reflexões

Este post vai para os muitos jovens regentes (baseado num bate-papo com um jovem colega-amigo-desanimado-impaciente, em outros tempos), repetindo sempre: não desanimem, estudem e, acima de tudo tenham paciência, paciência, paciência...

Há exatos 30 anos eu entrei à frente de um coro, para reger. Exatamente da mesma maneira que muitos outros o fazem aqui no Brasil, ou seja, sem conhecimento de técnicas de condução, incentivado por um regente mais velho que, romanticamente, acreditava que eu tinha talento e que, por isto, deveria começar desde cedo a dirigir, a conduzir. Ao longo destes vários anos muitos cursos foram feitos, centenas de concertos foram realizados, milhares de ensaios foram conduzidos, construindo e desconstruindo a arte do gesto.


A técnica da regência é incerta: a regência orquestral pede uma coisa, a coral outra, tenta-se misturar as duas e nem sempre dá certo; alguns maestros pregam a independência do gesto em função da circularidade das frases, outros acreditam que a prevalência da manutenção do pulso é mais importante; Magnani acreditava que a condução da frase era essencial; Carlos Alberto Pinto Fonseca afirmava o ritmo na virilidade da sua condução, etc. Há como misturar as lógicas? Sim. Vale a pena? Nem sempre. Uma conclusão? É uma arte que demanda estudo e pesquisa do que se faz, tal qual é a arte do teatro de bonecos japonês (Bunraku), que demanda quase a vida inteira para permitir aos artistas movimentarem os bonecos integralmente. Outra conclusão? Não se rege coro como se rege orquestra. Ainda outra? Falta muito para aprender a reger como meus velhos mestres. Boa semana a todos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Life is a circle (Ivo Antognini)

Nascido em Locarno (Suiça), em 1963, Ivo Antognini formou-se em piano em 1985. A composição sempre foi de grande interesse para ele desde a infância, à qual ele sempre se dedicou como um compositor autodidata. Um informal, mas muito importante, encontro com o Coro Calicantus e seu regente, Mario Fontana, levaram-no a descobrir o campo da música coral em 2006. Imediatamente ele se tornou compositor residente deste esplendido coro infantil. Foi convidado para ser compositor visitante da Schola Cantorum de Hudson na temporada 2011-2012.

Apreciem esta sua composição, executada pelo Salt Lake Vocal Artists:


A vida é um círculo
Black Elk – Oglala Sioux  (1863-1950)
Tudo o que o poder do mundo faz,
é feito em um círculo.
O céu é redondo
e eu ouvi que a Terra
é redonda como uma bola,
e assim são todas as estrelas.
O vento em seu maior poder rodopia.
Os pássaros fazem seus ninhos em círculos;
pois sua religião é a mesma que a nossa.
O sol vem e
se põe de novo em um círculo.
A lua faz o mesmo
e ambos são redondos.
Mesmo as estações formam um grande círculo
em suas mudanças
e sempre voltam
para onde eles estavam.
A vida de um homem é um círculo,
Da infância para a infância
e assim é com tudo
onde se move o poder.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Cert’nly Lawd – Moses Hogan (novo vídeo do Madrigale postado no youtube)

Esta gravação foi feita no dia 24/04/2013, quando realizamos o concerto Negro Spirituals, no Conservatório da UFMG (BH). A solista é Patrícia Cardoso Chaves, e o percussionista é o grande Werner Silveira.

Moses Hogan (1957-2003), era pianista, regente e compositor, e é muito conhecido pelos suas composições e arranjos de música coral, sobretudo de spirituals. Suas obras são executadas por coros amadores e profissionais por todo o mundo, já que sua obra aplicou os recursos musicais contemporâneos aos Negro Spirituals.



Tradução livre:
Você tem uma boa religião?
Oh, certamente Senhor.
Você não pode sentir o espírito movendo?
Você não está cansado?
Há um dia melhor vindo.
Você é convertido?
Você ama todo o mundo?
Sim, certamente Senhor.
Eu tenho religião e eu sou convertido.
Eu amo todo o mundo Senhor.
Certamente, Senhor.
Você foi à água?
Sim, certamente Senhor.
Você foi batizado?
Sim, certamente Senhor.
Você sente o espírito?
Oh, sim. Eu sinto o espírito movendo porque eu me converti e eu sei que eu tenho uma religião.
Sim, eu sinto um grito vindo porque eu realmente sinto o espírito movendo.

Certamente, certamente Senhor.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Cloudburst (Whitacre)

Eric Whitacre
Divulgando obras corais:
Cloudburst (aguaceiro) é uma das mais famosas composições de Eric Whitacre, escrita em 1992, quando o compositor tinha 22 anos. É escrita para coro a oito vozes, acompanhado de piano e percussão. O texto é do poema El Cántaro Roto, de Octavio Paz, adaptado por Whitacre.

A peça foi escrita para a maestrina Jocelyn Jensen e durava aproximadamente 10 minutos em sua versão original, mas foi encurtada para sua versão definitiva, a qual foi publicada em 1995. Uma versão para banda sinfônica foi feita pelo compositor em 2001. Apreciem!!!


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sacro X Profano

Considerações do maestro, pensando na programação do segundo semestre:

Há bem pouco tempo atrás, os corais tinham por hábito montar seus concertos em duas partes: uma com músicas sacras, e outra com músicas profanas (posteriormente, chamávamos a segunda parte de “populares”). Hoje, os concertos são mais ecléticos, sendo que os gêneros não mais são diferenciados. Canta-se música coral, e pronto.

Eu próprio fui um dos que considerava importante uma miscigenação dos gêneros, por entender que sua separação mais prejuízos do que benefícios trazia. No entanto, o tempo passa e a distância dos elementos exclusivamente sacros começam a fazer falta na completa maneira de pensar o interpretar a música. Há uma discussão constante do que é o “mistério” quando se canta música sacra, que não é possível pensar em outros gêneros. Termos como “amor”, “prazer”, “gozo”, “êxtase”, “paixão”, “sofrimento”, “desespero”, etc. têm significado único e diferente neste contexto, e é justamente na diferenciação da música coral da instrumental que a palavra tem a sua importância máxima. O termo para isto é verbalização. Para quem canta, o texto de São João é altamente significativo: No princípio era o Verbo, e o Verbo se fez... cantando.


No nosso tempo, exprimir-se em termos sacros não é bem visto quando se canta em teatro. Música sacra se faz na igreja, e ponto. Desconsideremos. Música sacra se canta em qualquer lugar, porque ela é única enquanto sacra, porque ela evoca em nós sensações e sentimentos os quais não são “palpáveis”, nem “visíveis” na música popular (profana). São universos diferentes. Faz parte do “MISTÉRIO”. Amém.