Após o 1º. Encontro de Corais Mineiros, em
1980, alguns dos maestros participantes pediram a Carlos Alberto Pinto Fonseca uma crítica sobre seus corais.
Entendendo, sabiamente, que "crítica é algo delicado", sobretudo naquele caso em que vários dos regentes participantes foram seus alunos em festivais, Carlos
Alberto preferiu não emitir opiniões. No entanto, optou por
abordar alguns problemas básicos que “podem ocorrer no trabalho com coro, sem se referir a nenhum colega ou conjunto, em especial”, publicando considerações em alguns números do jornal da Federação Mineira de Conjuntos
Corais, entidade que já não existe mais.
Sua colaboração ajudou, e continua
ajudando, sobremaneira os jovens regentes, pois servem como um primeiro passo
para reflexões pessoais sobre alguns tópicos relativos ao trabalho coral, os
quais transcrevo em uma sequência de posts. Ainda que eu não concorde com
alguns pontos explicitados pelo maestro, e ainda relevando algumas informações
históricas que já foram modificadas pelas pesquisas musicológicas dos últimos
30 anos, entendo que a importância dessa opinião permanece, tanto que a ela
recorro muitas vezes como partida para reflexões próprias.
Suas observações foram divididas em seis
partes:
a)
Repertório;
b)
Preparo da Peça;
c)
Estilo;
d)
Andamento e Fraseio;
e)
Técnica vocal;
f)
Técnica do Gesto ou Regência.
Reflexões
em torno de elementos básicos da Regência Coral – Carlos Alberto Pinto Fonseca
- REPERTÓRIO
Não devemos dizer que os corais devam fazer
tal ou tal repertório. Mas, o repertório dentro de sua comunidade, deve
procurar sempre uma melhoria de nível. Principalmente, ter consciência de que o
coro é também um instrumento de cultura e que tem sua linguagem específica.
Achamos que a música coral da Renascença
(compositores entre 1450 e 1600), chamada “o período áureo da polifonia vocal”,
é excelente veículo de aprendizado, não só para corais novos, como para os que
não dispõem de muitos recursos técnico-vocais: em geral, possuem tessitura
cômoda, intervalos melódicos fáceis, ritmos relativamente simples, cada voz tem
sua linha melódica própria e as peças atingem ótimos resultados sonoros dentro
de uma economia de recursos admirável. Em geral, são peças curtas, de fácil
assimilação para o coro e também para o público, especialmente as da Renascença
profana, de caráter leve, onde se pode tirar muito partido da dicção. (obs.
Cuidado, entretanto, com as obras dos períodos de transição: as obras do século
XV, como as de Dunstable, Dufay, Binchois e seus contemporâneos, ou mesmo as de
Ockeghem ou Obrecht, pois estão ainda sob as influências da complexa estrutura
rítmico-melódica que floresceu no século anterior, apresentando dificuldade de
execução, especialmente na música religiosa. Da mesma forma, os compositores do
fim da Renascença, já perto do Barroco, tornam-se mais complexos quando começam
com cromatismos como os de Gesualdo da Venosa (1560-1613), talvez o mais audaz
e difícil compositor renascentista. Enquanto a música profana da Renascença é,
como dissemos, simples de realizar, já o chamado “grande barroco” de Bach e
Haendel é dos mais difíceis de se fazer bem, pois exige tessitura bem mais
ampla e pressupõe uma técnica vocal apreciável, principalmente as que
apresentam longos vocalizes. (Não fazer, em apresentações públicas, repertório
acima das possibilidades técnicas do conjunto...)
Ainda dentro do tema REPERTÓRIO, gostaria
de fazer um apelo no sentido de ficarmos dentro da linguagem específica para
CORO A CAPPELLA. Música que foi composta para ser cantada com orquestra (ópera,
oratório, cantata), só deve ser cantada com orquestra, dentro de sua função.
Sem a parte instrumental fica incompleta; com piano fazendo o acompanhamento no
lugar da orquestra, péssimo. (Particularmente, só me agrada coro com piano em
situações muito especiais, quando a obra já foi composta para coro e piano por
um compositor que conhecia a fundo o coro e o piano, como é o caso de Brahms).
No caso de ARRANJOS, saber se o arranjo mantém o sabor original, a leveza, a
brejeirice, a ingenuidade ou espontaneidade popular, no caso do folclore: se é
escrito em linguagem coral, se cada voz é bem escrita, tem conteúdo, no caso
geral. Os arranjadores deveriam ter em mente que cada voz deve ser portadora do
conteúdo musical, que no coro todas as vozes são igualmente importantes. Não
têm interesse arranjos corais onde o soprano apenas canta a melodia principal,
enquanto as outras vozes ficam a fazer “tum-tum-tum” ou “la-la-la”, sem um
maior conteúdo melódico, rítmico, contrapontístico ou harmônico.
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